O humor sempre tem um alvo?

irina_1Em defesa de um humor sem limites (agressivo?), ouvimos muito essa frase: “O humor sempre tem um alvo”. O sentido que isso transmite ao comediante não é nada agradável, pois ele pode ser associado a alguém com uma arma na mão engatilhada para atingir alguém. Não é bem assim…

HUMOR É CRÍTICA E, POR ISSO, NUNCA SERÁ UNÂNIME

Sim, meus caros, o humor sempre tem um alvo. Sabem por que? A piada é uma crítica social e, como tal, sempre atinge um discurso, um estereótipo, uma lógica, uma característica, um grupo social ou até uma pessoa.

piaE não tem como uma crítica ser unânime. Ainda mais num mundo onde existem bilhões de pessoas conectadas e a maioria delas está desocupada (imagem ao lado) o bastante para rebater ou reproduzir as colocações que a piada causou.

A PATRULHA DO POLITICAMENTE CORRETO

Partindo desse pressuposto, ingênuo é o comediante que acha que nunca terá uma piada (crítica) contestada por outra pessoa. A razão quanto a essa acusação deve ser pensada caso a caso (algumas vezes, judicialmente).

No entanto, chega a ser engraçado o sangue (ou lágrimas) nos olhos de certos comediantes ao reclamarem que estão sendo vigiados por uma patrulha politicamente correta. Para isso, é interessante assistir ao documentário: O Riso dos Outros.

Jean Wyllys é um personagem chave que é visto como um radical (xiita) e censor, mas que possui colocações um tanto quanto justas. Leiam o que ele diz neste documentário:

Jean-Wyllys-bbb“Acho que os humoristas e comediantes têm que ter liberdade mesmo de fazer a piada. Agora, eles não podem achar que não tem que ser contestados. Porque esse é o problema: querer fazer a piada e querer não ser contestado” Jean Wyllys

Mesmo assim, é claro que a contestação deve vir com tons de bom senso, pois podemos implicar com qualquer vírgula, ou mesmo insistir que é racismo não existir um repórter negro no CQC (?). (Veja um vídeo que explica bem essa falta de bom senso nas reclamações).

A MAIORIA DAS POLÊMICAS ESTÁ NO STAND-UP

O engraçado deste personagem é justamente o absurdo que ela dispara contra todas as minorias: principalmente gays, lésbicas e negros. Se formos analisar o texto dessa esquete acima…Eitcha! Os estereótipos contidos nestas piadas reforçam sentimentos de pura discriminação que, pasmem!, muitos devem concordar. E mesmo assim, eu nunca vi nenhum movimento social se indignar com este vídeo por ele reforçar tantos preconceitos. Mas a graça está no absurdo! É um personagem. Sabemos que Paulo Gustavo não pensa assim…

Diferentemente do teatro, o Stand Up escancara o comediante. Suas piadas são expostas como opiniões dele próprio e não somente como “uma piada”. A responsabilidade dele se redobra. E ele sabe disso. Ninguém é santo nesta história.

UM POUCO DE TEORIA: REPETIR É MAIS FÁCIL QUE DESTRUIR

Henri Bergson pontuou três métodos para o elaboração de piadas:

  • Repetição
  • Inversão
  • Duplo sentido (que é auto explicativo)

A repetição é o efeito cômico mais utilizado entre os comediantes, pois além de fácil, está mais ligado ao cotidiano humano. Reproduz o que já está pronto: repetição de atos, de gestos, de termos verbais (jargões, bordões), estereótipos…

Já a inversão, é uma afronta a regras, normas e hierarquias da sociedade. É usada muitas vezes em conjunto com a ironia (que Bergson não pontua em seu livro), que é uma das mais sofisticadas e difíceis formas de humor. Talvez por isso seja pouco utilizada.

A PATRULHA RECLAMA DA REPETIÇÃO

Geralmente, a crítica da “patrulha” acontece porque as piadas só usam a repetição, pois ela legitima o que já está pronto. As reclamações aparecem porque os humoristas só reafirmam padrões ultrapassados que, historicamente, ofendem e oprimem certos grupos sociais.

“O estereótipo é uma muleta da comédia. O dia está ruim, ninguém está rindo. Daí você fala: ‘Ah, porque são-paulino é veado’. A galera vai aplaudir porque tem uns corintianos lá e vai ter o são-paulino e então você vai falar: ‘O corintiano é ladrão’. E eles vão rir” Maurício Meirelles

É em nome dessa lógica (preguiçosa) que aparecem os discursos que clamam por “bater no opressor e não no oprimido”. Inverter a lógica que já é imposta há séculos. Como disse no texto da semana passada, não acho que isso deva ser uma regra (eca!) suprema do humor.

No entanto, precisamos pensar que o humor pode ser muito mais transgressor e transformador se a subversão acontecer. Isso porque, ao destruir um estereótipo, você é obrigado a reformular um novo (e por que não ideal?) panorama social. Esse é o papel da crítica (humor): aperfeiçoar, melhorar, reformar, retocar, valorizar, progredir a sociedade.

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