Somos todos minoria

obras-de-tarsila-do-amaral-operariosRecentemente, começaram a surgir inúmeras regras e normas de conduta para o humor. E, claro, todas essas fórmulas têm gerado legislação e código de ética inerente aos comediantes. Aqueles que não cumprem são publicamente punidos com a fogueira do ostracismo, do ódio, da intolerância, da negação (joga pedra na Geni). Todavia, já existe legislação que regula o limite do cômico e é ela que deve ser respeitada.

UM MUNDO DE MARAVILHAS: ONDE UM NÃO É MAIS QUE O OUTRO

Fica óbvio pensarmos que a discriminação surge quando as forças de poder entre dois ou mais grupos se contrapõem. Mais óbvio fica quando quantificamos o número de pessoas desses grupos (embora a quantidade não seja único fator catalisador de segregação).

Quando a maioria é branca, o negro é discriminado. Quando a maioria é hétero, o gay é discriminado. Quando a maioria é homem, a mulher é discriminada. Quando a maioria é gay, o bissexual é discriminado. Quando a maioria é cristã, o ateu é discriminado.

Essa relação de poder é meramente relativa e flexível. Não estou negando a existência da heteronormatividade, nem mesmo a predominância da cultura branca, ou então da cristã. Heterossexuais não são melhores que os gays porque existem em maior quantidade. E vice-versa. O ideal é que todos pensassem assim.

No entanto, vivemos numa lógica binária herdada da Bíblia. São dois lados que se contrapõem e não existe “e”, somente “ou”.

  • Bem ou mal.
  • Certo ou errado.
  • Normal ou anormal.
  • Céu ou inferno.
  • Lady Gaga ou Madonna.
  • Opressor ou oprimido.

fuziladoQuem é o oprimido? Quem é o opressor? Muitas vezes, essa distinção não é clara. Uma dica: quando surgir a dúvida sobre quem é o oprimido e quem é opressor, em geral, o indivíduo que foi fuzilado é o oprimido. (Gregório Duvivier).

OFENDER O OPRESSOR É O MESMO QUE JUSTIFICAR UM ERRO COM OUTRO

Não devemos limitar e reduzir a reflexão sobre o humor evocando a famosa frase: “Deve-se rir do opressor, e não do oprimido”. Certa vez, um famoso comediante amigo meu me disse: “Quem falou que o opressor não se ofende?”. Exato. O desrespeito a qualquer ser humano deve ser levado a sério. Ofender outra pessoa, por pior que ela seja, tem de haver responsabilidade.

Fica claro, então, que o limite do humor é a ofensa. Quem não tem limite é o riso. Existem pessoas que riem de piadas agressivas. Existem pessoas que não riem. Mas…Ninguém tem o direito de ofender ninguém.  O código penal prevê detenção pra quem ultrapassa o limite de outra pessoa. (Ver injúria)

No mundo da internet (que acreditam ser uma terra sem lei), todos são comediantes e têm suas responsabilidades civis e penais. Essas leis servem pro Vinícius Vieira e para os twitteiros que insinuaram alguns hábitos de Aécio Neves.

SE O LIMITE JUDICIAL É A OFENSA…QUAL O LIMITE DO COMEDIANTE? É O RISO?

Os palhaços mais abusados vão dizer que “vale tudo” para fazer alguém rir. Será? Vale a pena ofender alguém para fazer outros rirem? Comediantes inteligentes são aqueles que não apelam para esse nível. E quando o descuido acontece (porque ele é quase inevitável, as piadas falham), esse comediante se desculpa.

Não dói pedir desculpa. O que dói é a ofensa. Pedir perdão por uma piada mal-feita é reiterar que aquilo foi uma brincadeira, sem intenção de ofender. Grande parte dos processos surge justamente pela falta desse cuidado.

CHARLIE HEBDO: QUANDO O HUMOR É ACUSADO DE OFENDER UMA CRENÇA

A religião é parte da cultura de um povo e, como tal, deve ser respeitada. Entenda a palavra respeito como sinônimo de tolerância. Da mesma forma, a não-religião também deve ser respeitada e tolerada.

O humor é usado como ferramenta para criticar a sociedade porque faz representações distorcidas e satíricas daquilo que o mundo possui.

bakhtinO riso foi enviado à terra pelo diabo, apareceu aos homens com a máscara da alegria e eles o acolheram com agrado. No entanto, mais tarde, o riso tira a máscara alegre e começa a refletir sobre o mundo e os homens com a crueldade da sátira (Mikhail Bakhtin)

O cômico escancara as qualidades do mundo. Proibir as piadas com religião vai contra o princípio mais valioso do humor: a crítica.

bofffNa religião muçulmana, há um princípio que diz que o Profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma. Esse é um preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos (Leonardo Boff)

O “desrespeito” não legitima nenhuma intolerância. Volto a repetir: um erro não justifica o outro. A violência vai contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos: texto que deveria ser o prefácio de qualquer livro sagrado.

PORCHATE o dia que um maluco acreditar que beber água é pecado? Aí, a gente faz o quê? Tolerância religiosa é uma coisa, cada um acredita no que bem entender. Mas a sua crença não pode interferir na minha vida. Eu não posso ser tolhido das minhas ações porque você acredita numa fábula que você chama de religião (Fábio Porchat).

Se bobear, existem mais religiões do que pessoas. Basta você existir para desrespeitar alguma delas. Não existe lei que nos obriga seguir os dogmas sagrados. O nosso limite – o de ofender outra pessoa e não uma religião – tem norma e não pode ser regulado por meio de todas as crenças existentes no mundo.

COMO SABER SE A SUA PIADA VAI OFENDER ALGUÉM?

Deve-se rir do opressor, e não do oprimido? Essa história entre oprimido e opressor sempre vai existir. Marx fez essa leitura em todas as sociedades que existiram. Limitar o humor a uma regra dessas é fomentar um ciclo vicioso.

marx sosiaA história de todas as sociedades que existiram até hoje tem sido a história da luta de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, tem vivido numa guerra ininterrupta, ora aberta, ora disfarçada (Manifesto do Partido Comunista de MARX e ENGELS).

Sou mais adepto àquela velha lógica do “não faça com os outros, o que você não gostaria que fizessem com você”. Antes de disparar uma piada contra alguém ou algo, se ponha no lugar do seu alvo. Se você viu alguma ofensa, cale-se.

No entanto, as respostas para essa pergunta serão sempre muito relativas (e subjetivas). Tem gente que se ofende com tudo. Tem gente que não está nem aí. Bom senso é a palavra de ordem para os dois lados (sejamos menos xiitas!).

Em algum momento de nossas vidas: somos todos comediantes, somos todos opressores, somos todos oprimidos, somos todos maioria, somos todos minoria.

Independente de qualquer classe que a gente esteja encaixado (opressora ou oprimida): O comediante (qualquer pessoa que faz piada) não tem direito de ser uma metralhadora de ofensas, seja contra quem for.

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